Acumulativa

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Foto: We Heart It

Tem uma caixa de papelão em cima do meu guarda-roupa. Ela fica ao lado de pelo menos cinco bichos de pelúcia. Todos eles têm uma história diferente. Há um urso branco, que ganhei de um menino que me chamou para sair quando eu tinha meus 14 anos. Há também um urso rosa, que minha avó me deu de presente de aniversário aos 10 ou 11 anos. Há tantos outros com histórias tão singulares quanto essas. São objetos que eu amei em determinado momento da minha vida. Amei com a intensidade e a inocência que só uma criança consegue. E a cada vez que olho para essa fileira de pelúcias, em cima desse guarda-roupa, eu sinto que a vida passou e eles ficaram para trás, confinados no meu quarto.

Essas pelúcias dividem o pequeno espaço do topo do meu guarda-roupa com a tal da caixa de papelão. Dentro dessa caixa, há cartas, CDs, antigas medalhas de futsal e fotografias. Cada uma dessas coisas, por mais inúteis que pareçam, eu escolhi guardar. Já não ouço mais as mesmas bandas e nem ao menos converso com todas as pessoas que me escreveram aquelas cartas. Mas cada um daqueles itens, sufocados naquela caixa antiga, fazem parte da minha história. Aquela música que eu tanto amei, não causa mais o mesmo efeito em mim. Aquela amizade eterna, ficou perdida no tempo e no papel. Eu acreditava que iria amar fielmente todas as coisas que estão guardadas nesse pedaço de papelão nostálgico. Mas a vida passou e tudo isso ficou para trás, confinado no meu quarto.

Dentro desse guarda-roupa tem um casaco. Um casaco que costumava ser marrom escuro, mas que hoje está mais claro do que me lembro. Ele pertenceu ao primeiro menino que partiu meu coração, mas eu levava essa roupa comigo, porque sentia que era uma forma de trazê-lo para perto de mim. Eu acreditava que nunca seria capaz de olhar para o casaco sem sentir dor. O símbolo da minha tristeza agora encontra-se amassado e jogado no fundo do meu armário. Eu nem lembro de sua existência. A vida passou e toda a mágoa ficou para trás, esquecida entre tantas outras roupas.

Acumulo tudo o que posso – meu armário, caixas, gavetas e o coração estão sempre sobrecarregados de emoções amontoadas. Toda pessoa que passa por mim deixa alguma coisa. Suas particularidades estão nas músicas que não escuto mais, nas cartas que não leio ou nos livros empoeirados da estante. E no meio de toda essa bagunça acumulada no meu quarto, agora tem você. Pergunto-me se vai chegar o dia em que a vida vai passar e te deixar para trás também.

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