[Opinião] Abusado: O Dono do Morro Dona Marta, Caco Barcellos

Foto: Google Images

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O livro-reportagem “Abusado: O Dono do Morro Dona Marta”, do jornalista gaúcho Caco Barcellos, é um retrato fiel do tráfico, da ação da polícia e de toda a situação de miséria e violência que as comunidades do Rio de Janeiro enfrentam. Para contar essa história, Barcellos utiliza-se de elementos literários, como a descrição minuciosa de detalhes, diálogos naturais e personagens que à primeira vista, parecem inventados. O que diferencia o livro da literatura comum, é justamente a veracidade das informações – princípio básico do jornalismo.

A história acontece na favela Santa Marta, que fica no bairro Botafogo, no Rio de Janeiro. Barcellos faz uma verdadeira linha do tempo e conta a vida do traficante conhecido como Juliano VP, o dono do morro e líder do Comando Vermelho. Sua infância, amores, gostos e a ascensão/decadência no comando do tráfico, são histórias apresentadas ao leitor, que, em alguns momentos, chega a sentir empatia pelo bandido. Isso porque os motivos que fizeram Juliano entrar para o tráfico são óbvios. O pai era violento e abusivo – batia na mãe e o espancava constantemente. Certa vez, até colocou fogo na casa com a família dentro. Viviam em situação de extrema pobreza, tendo que trabalhar duro para ter o que comer.

E não foi só a infância de Juliano que foi sofrida. Os demais traficantes também viveram situações parecidas, com abusos, violência, miséria e estupros (no caso das moradoras do morro, que ajudavam os bandidos). Barcellos contextualizou a vida dos meninos e plantou a sementinha da dúvida em nossa cabeça: como crescer em um ambiente extremamente violento, sem sucumbir ao tráfico? Nas condições apresentadas pelo jornalista, parece-me praticamente impossível não cair em “tentação”.

A pobreza extrema e o envolvimento com drogas desde muito cedo, são fatores que fazem com que crianças entrem no tráfico. Os motivos são muitos, mas entre eles, podemos citar o dinheiro fácil e a necessidade de ajudar nas despesas de casa. Elas acabam fazendo o possível para sobreviver, mas uma vez que são expostas a esse mundo, fica cada vez mais difícil largá-lo.

Houve um grande trabalho de pesquisa para que o jornalista conseguisse obter as informações para escrever o livro. Barcellos entrevistou cerca de 150 pessoas para escrever Abusado. Entre as fontes necessárias para que a história de Juliano fosse contada, estão traficantes, parentes de integrantes da quadrilha e outras pessoas do morro. Com um grande número de histórias em mãos, o jornalista precisou selecionar as informações, decidindo o que era relevante e deveria ser investigado – já que ele não poderia basear-se somente no que as pessoas o contavam.

A trajetória de Juliano VP e de seus amigos traficantes foi relatada através de cartas, diários, registros de empregos em carteiras profissionais, álbuns de fotografia, boletins escolares, notícias de jornais, processos judiciais e inquéritos, entre outras diversas formas de documentação. Para o jornalista, publicar algum depoimento como se fosse verdade absoluta antes de investigar, seria irresponsabilidade.

Conquistar a confiança dos moradores da favela, para que eles contassem suas histórias, foi uma das tarefas mais difíceis. O jornalista se arriscou ao subir o morro para conversar com a comunidade, levando essa coragem ao extremo ao se encontrar com o próprio Juliano VP – que na verdade, chama-se Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP. Barcellos encontrou-se com o traficante diversas vezes, que o contava sua trajetória. Mesmo que tenha conversado com o personagem do livro, muitas informações sobre Marcinho não foram obtidas por meio do traficante, mas sim pelos depoimentos de moradores da favela, que, segundo o jornalista, sempre sabiam tudo sobre todos.

Caco Barcellos não vivenciou as experiências relatadas no livro. Ele escreve o texto por meio do olhar de outras pessoas. Ele está contando a história da comunidade do Rio de Janeiro, não a sua. Barcellos não é o foco do livro, ele é o narrador – que está a serviço da informação. Como autor, não foi uma peça-chave para o desenrolar da história, como o jornalista Gilberto Dimenstein foi no livro-reportagem “Meninas da Noite”.

Isso muda a partir do capítulo 31, onde o jornalista passa a ser também personagem de sua obra. A partir daí, o texto é narrado na primeira pessoa e todas as impressões do autor – até então camufladas – começam a surgir. Barcellos não é mais apenas o articulador da história, ele é uma parte importante dela. Ele passa a vivenciar as experiências para depois narrá-las.

Nota-se a tentativa do jornalista de humanizar os personagens. Ele não os trata de maneira superficial e nem os julga. Juliano é exposto não somente como um chefe de tráfico, cruel e sem alma. Ele é visto também como aquele menino que pintava, dançava e viu a violência como a única maneira de ser alguém na vida. Infelizmente, relatos assim são comuns em favelas do país inteiro. Essa é a reflexão que Barcellos nos deixa. Seria Juliano apenas mais uma vítima da sociedade?

*Resenha redigida para a disciplina de livro-reportagem.

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