Poemas de Amor: Fernando Pessoa

Foto: We Heart It

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Em uma das minhas voltas pela biblioteca da faculdade, encontrei um livro que me chamou a atenção. Poesias por si só já me despertam um grande interesse, mas quando li na capa: Poemas de Amor, Fernando Pessoa, não pensei duas vezes. Peguei o livro rapidinho e tratei de sair logo dali.

Pessoa: um poeta de tantas faces, com cada uma delas igualmente sensacionais. Só resta-me fazer um esforço e compartilhar alguns dos tantos poemas incríveis que encontrei nesse livro.

Dorme enquanto eu velo…

Deixa-me sonhar…

Nada em mim é risonho.

Quero-te para sonho,

Não para te amar.

A tua carne calma

É fria em meu querer.

Os meus desejos são cansaços.

Nem quero ter nos braços

Meus sonhos do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,

Vaga em teu sorrir…

Sonho-te tão atento

Que o sonho é encantamento

E eu sonho sem sentir.

No ouro sem fim da tarde morta,

Na poeira de ouro sem lugar

Da tarde que me passa à porta

Para não parar,

No silêncio dourado ainda

Dos arvoredos verde fim,

Recordo. Eras antiga e linda

E estás em mim…

Tua memória há sem que houvesses,

Teu gesto, sem que fosses alguém.

Como uma brisa me estremeces

E eu choro um bem…

Perdi-te. Não te tive. A hora

É suave para a minha dor.

Deixa meu ser que rememora

Sentir o amor,

Ainda que amar seja um receio,

Uma lembrança falsa e vã,

E a noite deste vago anseio

Não tenha manhã.

Foto: We Heart It

Foto: We Heart It

A lembrada canção,

Amor, renova agora.

Na noite, olhos fechados, tua voz

Dói-me no coração

Por tudo quanto chora.

Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.

Não, a voz não é tua

Que se ergue e acorda em mim

Murmúrios de saudade e de inconstância,

O luar não vem da lua

Mas do meu ser afim

Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.

Não, não é o teu canto

Que como um astro ao fundo

Da noite imensa do meu coração

Chama em vão, chama tanto…

Quem sou não sei… e o mundo?

Renova, amor, a antiga e vã canção.

Cantas mais que por ti.

Tua voz é uma ponte

Por onde passa, inúmero, um segredo

Que nunca recebi –

Murmúrio do horizonte,

Água na noite, morte que vem cedo.

Assim, cantas sem que existas.

Ao fim do luar pressinto

Melhores sonhos que este da ilusão.

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar pra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há de dizer.

Fala: parece que mente…

Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-te

Porque lhe estou a falar…

A tua voz fala amorosa…

Tão meiga fala que me esquece

Que é falsa a sua branda prosa.

Meu coração desentristece.

Sim, como a música sugere

O que na música não está,

Meu coração nada mais quer

Que a melodia que em ti há…

Amar-me? Quem o crera? Fala

Na mesma voz que nada diz

Se és uma música que embala.

Eu ouço, ignoro, e sou feliz.

Nem há felicidade falsa,

Enquanto dura é verdadeira.

Que importa o que a verdade exalça

Se sou feliz desta maneira?

Foto: We Heart It

Foto: We Heart It

Por quem foi que me trocaram

Quando estava a olhar pra ti?

Pousa a tua mão na minha

E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento

Porque eu só quero pensar

Que é de mim que ele está feito

É que o tens para me dar.

Depois aperta-me a mão

E vira os olhos a mim…

Por quem foi que me trocaram

Quando estás a olhar-me assim?

—-

Tudo, menos o tédio, me faz tédio.

Quero, sem ter sossego, sossegar.

Tomar a vida todos os dias

Como um remédio,

Desses remédios que há para tomar.

Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto

De tantos tantos me fez nada em mim.

Minhas mãos ficaram frias

Só de guardar o encanto

Daquele amor que as aquecesse enfim

Frias, vazias,

Assim.

Morto, hei-de estar a teu lado

Sem o sentir nem saber…

Mesmo assim, isso me basta

Pra ver um bem em morrer.

Dias são dias, e noites

São noites e não dormi…

Os dias a não te ver

As noites pensando em ti.

Leve sonho, vais no chão

A andares sem teres ser.

És como o meu coração

Que sente sem nada ter.

Não sei que grande tristeza

Me fez só gostar de ti

Quando já tinha a certeza

De te amar porque te vi.

Foto: We Heart It

Foto: We Heart It

Vai alta no céu a lua da Primavera

Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.

Penso em ti, murmuro o teu nome: e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo.

E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos.

Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,

Isso sera uma alegria e uma verdade para mim.

(Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa)

*Poemas retirados livro Poemas de Amor, Fernando Pessoa, da editora Ediouro.

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