Ciclos

Foto: We Heart It

Foto: We Heart It

Já dizia Bukowski: “se não sai de ti a explodir apesar de tudo, não o faças”. Essa frase é tão verdadeira em tantos sentidos. Eu não poderia aplicá-la somente ao contexto atribuído pelo autor. Seria injusto, uma vez que ela é muito mais que isso.

Veja bem.

Cansada pela semana tumultuada e pelas muitas noites conversando com minha amiga insônia, cheguei em casa e fui pensar no chuveiro – ele é certamente o meu local preferido para reflexões. Mas naquele dia, algo estava diferente e eu não imaginava que ao sair de um simples banho, teria decidido um rumo totalmente diferente pra minha vida.

Li em um livro certa vez que “é muito difícil ir embora, até você ir embora de fato. E então ir embora se torna simplesmente a coisa mais fácil do mundo”. Durante muito tempo, estive rodeada pela palavra difícil. Se ao menos eu soubesse que seria fácil depois.

Mas o que é realmente difícil? Decidir ir embora ou deixar alguém ir? Não é fácil ter que olhar nos olhos de quem foi seu por tanto tempo e dizer “acabou, pode ir”. Depois disso é que você sente o gosto do fracasso. É quando lentamente, a pessoa caminha em direção à porta, gira a maçaneta e você descobre que é o fim. Nesse momento, pouco importa quem foi embora. O fato é que um dos dois jogou a toalha.

Houve um tempo em que eu senti saudade das dores de um amor perdido. Estava cansada da monotonia da minha vida e queria sentir algo mais forte – mais forte até do que o próprio amor que vinha sentindo. Teimosia de menina, eu acho.

Nesses momentos eu pensava: se não sai de ti a explodir, não o faças. E esse meu mantra era tão certo como poucas coisas na minha vida. Eu realmente precisava fazer algo: ir embora, deixar o outro ir. Mas quando alguém se vai, sempre leva uma parte nossa. Agora não sei se a dor que sinto é por esse pedaço faltando ou é simplesmente a dor que quis sentir por ser teimosa.

Tudo ficou tão cansativo.

As pessoas já não me encantam. Durmo como um bebê: embora eu ainda não saiba se é pela consciência limpa ou pelo abuso do álcool. As músicas fazem mais sentido, enquanto caminho pelas ruas e a sensação de partida me segue como um fantasma.

Ao mesmo tempo tudo é tão banal. O coração é tão clichê que chega a ser ridículo. Você conhece alguém, se apaixona, separa, sofre. Talvez case e se separe aos 60. Talvez não. Ninguém sabe, ninguém quer saber. Dizem que esse é o ciclo da vida, não é?

Porque quando eu caía de bicicleta não doía tanto. Porque o gosto do sangue não era tão amargo quanto o do fracasso. Porque a sensação de fracassar dói. A tristeza dói. E é uma dor física.

Porque entre o álcool e o amor, eu agora escolho o álcool. Porque é difícil demais seguir nesse ciclo. Porque eu não espero encará-lo novamente tão cedo. Porque eu finalmente fui embora e até agora, essa foi a parte mais fácil do meu ciclo de infelicidades.

Anúncios

2 Respostas para “Ciclos

  1. Caraca, que sensacional Carol!
    Quanta maestria com as palavras minha jovem (=
    Me lembrou de um filme que assisti há um tempo atrás – “Sr. Ninguém” O filme fala justamente sobre isso, escolhas.
    “”Se você misturar o purê de batata e o molho, você não pode separá-los depois. É para sempre. A fumaça sai do cigarro do papai, mas nunca volta para dentro. Nós não podemos voltar atrás. Por isso é tão difícil escolher.”

    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s