Longe de ser a preferência nacional

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Foto: We Heart It

O cheiro do novo em conflito com o velho. A placa de silêncio e o olhar da bibliotecária que parece te alertar: “não faça barulho!” Algumas estantes empoeiradas e outras bagunçadas, mesas tomadas por alunos que parecem exalar desespero. Um ambiente único, onde todos estão unidos pelo mesmo amor: os livros. A biblioteca muitas vezes é um refúgio e quando está situada em uma faculdade, acaba se tornando a salvação de alunos preocupados com a vida acadêmica. Mesmo sendo um sinônimo de tranquilidade, o ato de ir até a biblioteca está longe de ser uma preferência nacional. Uma pesquisa realizada em 2011 pelo Instituto Pró-Livro – instituição sem fins lucrativos que busca o estímulo à leitura e à difusão do livro, revelou que o brasileiro reconhece a importância da leitura, mas prefere fazer outras coisas.

Mais de cinco mil pessoas foram entrevistadas em 315 municípios. Os resultados apontaram que 64% dos participantes concordam que ler bastante pode fazer uma pessoa vencer na vida e melhorar sua situação econômica. Apesar disso, 30% disseram que não gostam de ler, 37% apreciam um pouco e 25% adoram. Entre os não leitores, as justificativas para não ter lido nenhum livro nos últimos meses é a falta de tempo (53%), e a preferência por outras atividades (21%). Apenas metade dos entrevistados podem ser considerados leitores – o critério é ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses.

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Foto: Site Instituto Pró-Livro

Pesquisa do Instituto Pró-Livro em 2011 aponta as atividades preferidas dos brasileiros 

O jornalismo é prático

O Instituto Blumenauense de Ensino Superior (Ibes Sociesc), localizado em Blumenau, Santa Catarina, conta com uma biblioteca que possui um acervo de 7.383 títulos, totalizando 21.142 livros. Normalmente, cerca de 4 mil alunos circulam por mês no local. Em junho de 2014, o número de livros emprestados chegou a 2.208 e o ano de 2013 contabilizou aproximadamente 30 mil empréstimos. A bibliotecária Rosália Maria Senger conta que os cursos que mais utilizam os livros são os de direito e administração. Ironicamente, o curso de jornalismo é um dos que menos utiliza esse recurso, com um número de empréstimos aproximado de 200 livros por mês.

O coordenador do curso de jornalismo do Ibes Sociesc, Eumar Silva, diz que normalmente, as bibliotecas de faculdades são pouco frequentadas. Mesmo em instituições com milhares de alunos, nota-se um baixo índice de frequência. Parte disso deve-se ao fato de que os brasileiros costumam ler pouco e isso reflete no baixo interesse pela leitura, especialmente a acadêmica. No caso do jornalismo, Eumar explica que o curso atrai pela praticidade da atuação e também pela exposição pública dos seus profissionais. “Na faculdade trabalhamos muito com jornais, revistas, rádio e TV. E tudo isto é material do dia a dia, acessível em todos os lugares, muito mais agora com a comunicação digital. Os jornalistas são práticos, portanto, é mais fácil ver um estudante de jornalismo buscar seu material de pesquisa fora da biblioteca”, relata.
Rosália explica que o fator principal para o aparente desinteresse acadêmico é o tempo, pois o aluno que faz graduação a noite, mal consegue ler as bibliografias básicas, quem dera as complementares. A biblioteca do Ibes conta com um pequeno acervo de literatura, pouco utilizado pelos alunos. Na estante, autores como José de Alencar, Machado de Assis, algumas ficções e poesias diversas estão empoeirados. A maioria das obras são doadas por alunos e professores, uma vez que a instituição não possui verba para literatura. O restante dos livros didáticos são comprados pela faculdade.

Dificuldades frustram alunos

As verbas para literatura nas universidades são por necessidade, conforme a demanda do curso. “Outras instituições que possuem uma situação financeira estável, destinam um espaço para a literatura, mas até onde eu sei, a verba é para um curso que esteja relacionado. Se não, se mantém um acervo pequeno, como é o nosso caso”, relata a bibliotecária. Quando um livro de literatura é doado ao Ibes, Rosália avalia se o local já possui algum exemplar, para que o mesmo não fique parado por muito tempo, já que não há procura por parte dos alunos. O cuidado é para não ultrapassar o limite de livros que a biblioteca suporta, pois o espaço físico é pequeno e por normas do Ministério da Educação (MEC), não há como diminuir a quantidade de cadeiras e mesas existentes para substituir por estantes.

A estudante de jornalismo do 4º semestre, Aline Christina Bremmer, diz que costuma frequentar a biblioteca, mesmo saindo de lá constantemente decepcionada. “Costumo ir lá para ver se chegaram novidades nas prateleiras do curso de jornalismo. Já peguei alguns livros, mas são realmente poucos que interessam. Como sou voltada para a parte de redação e escrita, praticamente não há opções úteis – uns três ou cinco livros talvez, ou seja, nada comparado ao acerto que deveria haver ali”, explica a aluna.

Mais atenção e investimentos

A política da Sociesc consiste em um projeto denominado PPC – Projeto Pedagógico do Curso. Este programa contém a parte teórica, bem como as bibliografias básicas e complementares que serão utilizadas ao longo dos semestres. A instituição tem a obrigação de ter esses materiais – são três títulos da bibliografia básica e cinco da complementar. “Na básica, temos que ter no mínimo um exemplar a cada dez alunos e na complementar, dois são o suficiente, dependendo sempre do número de alunos”, explica Rosália. Se um professor achar algum título que seja imprescindível ao curso, mas que não consta no projeto PPC, ele deverá fazer uma solicitação com a coordenação para a inclusão daquela obra no programa. Se for aprovada pelo conselho da faculdade, o livro passará a fazer parte da ementa do curso.

A biblioteca do Ibes é aberta a comunidade para consulta local, mas apenas alunos podem fazer o empréstimo. A estudante Aline Christina diz que falta atenção e investimento da instituição no curso de jornalismo, visto que ele é 90% teoria. “O Ibes era, até o início desse ano, a única instituição que oferecia o curso de jornalismo. A Furb iniciou há pouco mais de seis meses e já dá de dez a zero no nosso acervo. A biblioteca deveria dispor de exemplares atualizados e interessantes. De maneira geral, posso dizer que o acervo de jornalismo é uma vergonha para os alunos, mas, infelizmente, parece ser o suficiente para satisfazer professores, bibliotecários e demais profissionais do Ibes”, desabafa.
Mesmo não sendo a principal atividade dos brasileiros, há poucos lugares que nos fazem viajar como a biblioteca. Não pelo cheiro ou pelas placas, e sim, pelas diversas possibilidades que os livros nos oferecem. Quem sabe, em uma próxima pesquisa do Instituto Pró-Livro os números tenham mudado, e a consciência de que ler aumenta suas chances de crescimento, saia do pensamento e vire um hábito.

*Texto redigido com o tema faculdade, para a disciplina de Jornalismo de Revista.
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