Antologia de Poemas para a juventude – Por Henriqueta Lisboa

large (5)

Foto: We Heart It

Ando lendo muita poesia, isso é um fato. Dias atrás, me deparei com um livro de poemas esquecido em uma das prateleiras da biblioteca da minha faculdade. Quando observei a capa, um nome logo saltou aos meus olhos: Edgar Allan Poe – camuflado entre tantos outros escritores que admiro. Não pensei duas vezes e levei o livro pra casa. Como de costume, separei alguns de meus preferidos. Confira:

Mário Quintana – Canção da Janela Aberta

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela…

Sem mais cuidados na terra,
preguei meus olhos no Céu…

E o quarto, pela noite
Imensa e triste, navega…

Deito-me ao fundo do barco,
Sob o silêncio do Céu!

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos…
Vou sepultar-me no Céu!…

Carlos Drummond de Andrade – Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
com quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Olegário Mariano – Ao Calor da Lareira

Mesmo só, quando ao pé do fogo da lareira
Ponho-me a recordar o que fui e o que sou,
A minha sombra – a eterna companheira
Que em dias bons e maus sempre me acompanhou,
Fica perto de mim de tal maneira
Que não parece sombra, é alguém que ali ficou.

Somos dois, cada qual mais tristes e mais calado.
Anda lá fora o luar garoando no jardim…
Tenho pena da sombra imóvel a meu lado
Possuída da expressão de um silêncio sem fim.
E recordo em voz alta o meu tempo passado,
E a sombra chega mais para perto de mim.

Ah! Quem me dera ter um bem que se pareça,
Que lembre vagamente outro que longe vai:
As mãos da minha mãe sobre a minha cabeça,
O consolo de amigo e a fala do meu pai.
E antes que anoite passe e a alma se enterneça,
Abro a janela e espio a lua que se esvai…
Qual! é inútil, por mais que esta lembrança esqueça,
Uma lágrima cresce em meus olhos e cai…

Deus há de permitir que eu adormeça
Com as mãos da minha mãe sobre a minha cabeça,
Ouvindo a fala comovida do meu pai.

Olavo Bilac – Os Rios

Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente.

Desejais regressar… Mas, leito em fora,
Correis… E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre o nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e a um tempo, da lembrança…
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade…

Rudyad Kipling – Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires;
De sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo que existe no mundo
E o que é mais – tu serás um homem, ó meu filho!
(Tradução de Guilherme de Almeida)

Ludwig Uhland – Primavera

Despertam docemente as brisas.
Sopram, serenas, noite e dia,
por toda a parte a sussurrar.
Aroma tenro, nova melodia.
Agora, pobre coração, reanima-te:
Agora tudo, tudo mudará.

Faz-se o mundo mais belo cada dia.
Se o momento presente é tão feliz
o amanhã que surpresas não trará!
Floresce ao longe o vale mais sombrio.
Agora, pobre coração, esquece a mágoa.
Agora tudo, tudo mudará.
(Tradução de Henriqueta Lisboa)

Goethe – Canção

Por sobre as cumeeiras
Tudo em descanso jaz,
Nestas regiões cimeiras
Apenas ouvirás
Um bafo, um sopro leve;
Dorme a avezinha em paz…
Espera um pouco, em breve
Também descansarás.
(Tradução de J. Ribeiro)

*Todos os poemas foram retirados do livro Antologia de Poemas para a juventude – Henriqueta Lisboa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s