Ouvir a escuridão

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Foto: Carolina Ignaczuk

Clara observava o céu do quintal de sua casa. Mais uma vez, a escuridão tomava conta de sua alma e o barulho dos galhos de árvores formavam sua trilha sonora preferida. Ela quase ouvia o barulho dos pratos e panelas que vinham de dentro de casa. O cheiro do jantar que sua mãe preparou, invadia o ar e ela desejou ficar ali para sempre.

– Meu amor, você não pode se esconder no quintal para sempre. Venha jantar antes que esfrie, por favor – disse a mãe de Clara.

Sem virar o rosto, Clara respondeu:

– Se eu pudesse te ver, diria que você está com aquela cara de brava que fazia quando eu tinha uns oito anos.

– Você é mesmo filha do seu pai.

E clara era. Cópia do pai em todos os sentidos. Mesmo gosto musical, mesmo gosto culinário, mesma mania de bater os pés quando estava ansiosa. Tudo estava sempre em perfeita sintonia para os dois. A família – agora de duas pessoas só – nem lembrava da última vez em que jantaram juntas desde a morte do pai de Clara. Conversas sem pé nem cabeça surgiam com a velocidade em que iam embora, deixando apenas um silêncio constrangedor.

Terminado o jantar, a pequena ansiosa voltou ao quintal. De novo escuridão. Os dias eram sempre iguais. Clara quase ouvia os beijos de boa noite dos pais de sua vizinhança. De olhos fechados e pés batendo freneticamente no chão, lembrou que sua vida nem sempre foi assim tão escura.

Agora ela sentia a chuva lavar a escuridão da sua alma.

– Maria Clara! O que você está fazendo na chuva? Quer pegar um resfriado. Vem já pra dentro!

– Não posso ir até aí. Não sei se consigo – e tornou a olhar para o céu.

A meninas pôs-se a contar as gotas que caiam do céu, que agora vinham com mais rapidez. Cada uma que caia, acertava-lhe como uma porrada nos ossos. Deveria estar pegando uma gripe, pois agora sentia-se sem forças para enfrentar a escuridão.

– Não quero falar de novo, Clara.

– Eu não quero voltar. Quando estou aqui sozinha, com o céu, a grama e a chuva, posso ser uma menina normal – gritou.

– Você é uma menina normal! Agora pegue a sua bengala e entre em casa. Estou mandando.

A mãe agora possuía um tom avermelhado em sua pele e sentia a ira tomar conta de seu ser. Ela era uma mulher de múltiplas personalidades e Clara conhecia cada uma delas. Não precisava olhá-la para saber, apenas sentia.

Depois da chuva, escuridão. O escuro nem sempre era tão assustador, mas hoje, ele parecia convidá-la para dançar. Ela quase ouvia a música.

Dançando em sentimentos esquecidos, Clara ia guardando memórias importantes em uma gaveta de seu cérebro: a mãe que sempre lia histórias antes de dormir, o acidente de carro que matou seu pai, o vidro que entrou em seus olhos no dia do acidente, o dia após a tragédia, a dor e a escuridão. Oh, Deus! A escuridão.

– Por favor Clara, você sabe que não adianta ficar aí fora para o resto da vida.

A menina levou a mão aos olhos perfurados. Então era isso que sua vida seria. A escuridão, sim! Agora ela ouvia a escuridão que a dominava com movimentos rápidos e precisos.

– Eu não vou entrar, mãe. Eu não vou voltar.

–  Volta meu amor, por favor. Eu não posso te perder também.

A mãe sempre foi dramática, essa era uma de suas inúmeras personalidades. A única coisa que Clara não entendia, era por que diabos não podia ficar no quintal. Esse era um dos poucos lugares do mundo em que ela encontrava a felicidade. Quando criança, passava dias e dias olhando as nuvens, deixando-se levar com a chuva, como se fosse parte da natureza.

Clara sentia-se feliz, como nunca mais havia ficado desde o acidente. Sua audição estava mais afiada que qualquer sentido seu já havia estado. Foi quando ela ouviu um barulho repetitivo, algo como um bipe.

– Estamos perdendo ela, façam alguma coisa!

– Nossa mãe, que exagero.

– Clara, levanta por favor.

– Tudo bem! Se isso é tão importante para você, eu levanto e entro na maldita casa.

Bem que ela gostaria. Algo a prendia na terra e ela não conseguia se levantar. Sentiu uma dor aguda no peito e uma falta de ar repentina.

O barulho do bipe ficava cada vez mais alto e os gritos de sua mãe também. Imobilizada, percebeu que foi tirada de seu paraíso natural. Já não ouvia mais os galhos, os pratos e panelas ou a música. Não sentia mais a chuva. O único som que predominava era o bipe ensurdecedor.

– Clara, por favor – ouviu a mãe suplicar.

Quando o barulho da máquina parou, Clara viu seu corpo esticado em uma cama de hospital e soube que não resistiu ao acidente. Mesmo que tivesse, estaria cega. Pela última vez, andou até a escuridão em busca de seu pai, mas agora ela podia ver.

Conto redigido para a aula de redação jornalística com o tema Cegueira.

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