Obrigado por Nada – Um texto de Andy Nowicki

Conheci há pouco tempo o trabalho do escritor norte-americano Andy Nowicki e preciso dizer que estou encantada. A Realejo Livros apostou no escritor e recentemente atingiu sua meta no Catarse (rede de financiamento online). Sendo assim, os leitores brasileiros poderão conhecer um pouquinho mais desse americano fantástico em seu livro Sob Efeito do Nada.

Agora, a editora espera ir além: trazer Andy para lançar seu livro no Brasil. Para isso, eles precisam mais um vez de sua ajuda, clique aqui e saiba como tornar esse sonho possível. Enquanto isso, sinta-se inspirado por um dos textos de Nowicki.

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Foto: Catarse

“Não sou estoico por natureza, por temperamento ou por hábito. Para meu eterno desespero, acredito que continuo a desejar o aplauso, a admiração e a aprovação de meus pares. De modo bastante horripilante, ainda tenho esperança no futuro. Cruzo os dedos, prendo a respiração e sinto borboletas no estômago quando antecipo a possibilidade de atingir algum tipo de sucesso temporário ou de vitórias nesta vida. Quando alguém me faz um elogio, encontro minha Sally Field interior – “Você gosta de mim, você realmente gosta de mim!” -, numa auto-afirmação irritante. (Sim, essa parte de mim que fica histérica de tal maneira é, sem dúvidas, uma mulher.)

Desde há muito, mantenho bravamente a mais alta consideração pelo estoicismo inflexível, porém não sou nenhum Epicteto. Tenho boa lábia e talvez até mesmo consiga projetar uma imagem convincente, mas no fundo – bem, não realmente tão lá no fundo –  ainda não sou capaz de me conformar com a realidade. Não são poucas as vezes em que me pego mais furioso com o inevitável do que aceitando-o.

O problema, claro, é que toda esperança depositada no mundo não transforma algo inevitável em algo evitável. Chega um ponto em que simplesmente devemos entender que nossos esforços são, em grande medida, em vão. Reconhecer este fato não significa sucumbir ao fatalismo ou render-se perante seus inimigos; na verdade, a determinação estoica é, em última análise, a única proteção segura contra o derrotismo. Há até mesmo um toque de estoicismo na primeira evocação da “Oração da Serenidade”* usada naqueles programas de doze passos e outros locais contemporâneos de psiquismo pop: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar”. Se alguém pode ser “sereno” sobre sua essencial impotência, pode-se, por sua vez, cultivar uma alegria por seus esforços diários para fazer o que é certo e evitar o que é errado, embora tais esforços façam parte do esquema geral do cosmos.

Não sou estoico; no entanto, estou aprendendo – lenta, porém firmemente – a me afastar deste apetite pateticamente primal, idiotamente adolescente, sedento por popularidade e aclamação. Levou muito tempo, e certamente demorará mais ainda, talvez o resto da minha vida, para me livrar dessa inata tendência Sally Field de me importar com o que os outros pensam de mim.

Hesito em universalizar minha própria embaraçosa luta contra a necessidade de ser “gostado”, tanto no Facebook quanto em outros lugares. Chego, no entanto, ao ponto de dizer que há algo inato à nossa consciência humana compartilhada que nos impulsiona a seguir o rebanho, a cortejar o favor de nossos iguais e dos poderosos, e tantas outras formas de nos mostrar como objetos dignos de admiração perante o mundo. No entanto, há também, eu descobri (e talvez você também tenha descoberto), um libertador e até mesmo um inebriante sentido de libertação e alívio que acompanha a decisão consciente de renunciar tais atividades de busca por aprovação e, em vez disso, atirar-se de cabeça numa absoluta e gloriosa perda de reputação. Há um prazer delicioso até em tentar deixar de ser atraente ou interessante para os outros, e ainda cultivar um desdém positivo diante daquilo que o mundo, em sua loucura, considera ser “atratividade” – a fim de rejeitar o Zeitgeist e todos os seus guardiões, para mostrar os dentes face a todos os principados e poderes desta era, com a arrogância de uma rainha do baile, mas no semblante de um gasto, mau cheiroso, escarrado e esmerdeado pária; em suma, para perturbar o equilíbrio da corrupção e da fraude neste mundo insignificante.

Dou graças a absolutamente nada. Ou seja, sou grato pelo abençoado vazio em que o narrador da verdade pode cair, um poço do ostracismo social e gloriosa miséria na qual ele pode desaparecer e da qual ele pode cuspir fogo santificado do inferno nos ouvidos dos complacentes, dos famintos por status, dos covardes e dos conformistas.

Este nada jamais nos desapontará. Obrigado, Deus, por este nada! Vamos todos nos unir a ele, sem abandoná-lo; abracemos abertamente nosso descrédito e nunca nos contentemos com menos do que a glória que acompanha nossa missão de falar a verdade em uma era de verdades abandonadas!”

*A “Oração da Serenidade” é o nome comum da oração originalmente sem título criada pelo teólogo americano Reinhold Niebuhr (1892-1971). Ela foi adotada pelos Alcoólicos Anônimos e outros programas de doze passos.

Tradução: Luiz Paulo Carvalho

Texto original aqui.

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2 Respostas para “Obrigado por Nada – Um texto de Andy Nowicki

  1. Eu conheci o trabalho deste autor recentemente e também achei fantástico. Os textos que ele escreve são muito bons! Fico muito feliz em saber que Sob o Efeito do Nada será publicado para que mais pessoas possam conhecê-lo.

    Lu
    Blog Sem Spoiler

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