Três vidas e uma história

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Foto: We Heart It

O relógio apitou às 7h da quinta-feira, Allan estava acordando para mais um dia no melhor trabalho do mundo. Melhor e pior. Ele trabalhava em uma casa de animais abandonados, aquela que é famosa por várias gaiolas com bichinhos, que todos os dias têm esperança de serem levados para um lar quente e aconchegante. Seu amor era tanto pelos peludinhos que ele não se via fazendo outra coisa senão, cuidando deles.

Era ele o responsável pelo banho semanal de seus protegidos, além de alimentá-los e trocar a água, os jornais, dar um afago diário, animá-los e cuidar de cada aspecto de suas vidas enquanto estivessem lá. E assim saía para mais um dia de trabalho, sabendo que alguns diriam adeus e outros iriam chegar, mas ele estava realmente ansioso para ver sua dupla preferida: o cachorro de olhos pidões e o gato de gênio carinhoso.

Também amanhecia no abrigo de cães. Centenas de novos rostos, várias mãos me apertando e vozes que tentam falar “cachorrês”. Todos os dias, a maior parte dos animais ficam à espera de um lar, onde uma pessoa irá cuidar deles da melhor maneira possível. Eu não vejo alguém que possa me tratar melhor que meu “dono postiço”. E lá vem ele.

– Oi Toby. Como você está hoje amiguinho?

– Au, au, au! (Tradução: você, comida, carinho!)

Meu rabinho balança feliz. Sua chegada é sinônimo de carinho, atenção e… comida. Ah! Como eu amo comer. Logo depois que me dá oi, vai até a gaiola do lado afagar o Bigode, meu amigo gato. Meu dono postiço é tão dedicado com a gente. Todo dia ele chega, olha cada uma das 100 gaiolas onde estão meus companheiros desabrigados e, a cada partida, sentia-se satisfeito por fazer com que o bichinho encontrasse uma casa, porém, ficava com saudade de cada um que ia embora. Esse homem que está conosco sempre, é o responsável por nos alimentar, limpar nossa gaiola fria, trocar nossos jornais, nossa água, nos dar carinho e também conversar. Ele vive falando comigo e meus companheiros de gaiola.

– Amanhã irá fazer três meses que você está aqui Toby. Não entendo como ninguém adotou você.

Não tenho como responder de maneira que ele entenda, mas meus baixos ganidos de choro deixam claro como me sinto.

– Bom, alguém logo deve vir buscá-lo, levando o Bigode junto. Espero que possa levar os dois, seria triste separá-los nesse estágio.

Bigode, o gato que se aconchega na gaiola nos dias frios para que nossos corpinhos se encostem e aqueçam, estava lá há tanto tempo quanto eu e tinha o mesmo sentimento pelo nosso pai postiço. Entretanto, não sabia quanto tempo ainda o teria ao meu lado.

(…)

A luz do sol já reflete em minha gaiola, formando quadradinhos imperfeitos no chão de cimento áspero. Mais uma vez, Allan se aproxima com minha comida preferida. Vejo que ele está com uma tigela desgastada de cor laranja. Sinto-me eufórico, pois sei que é hora do jantar. Apenas quando ele chega mais perto é que vejo seu rosto envolto em lágrimas. Reparo também na sua tentativa inútil de limpá-las.

Pela primeira vez desde que cheguei nesse abrigo, não ouço o latido estridente de Toby. Pergunto-me se algo grave aconteceu, não nos falamos mais desde uma briga idiota, onde ele ofendeu meu ego felino. Volto minha atenção para o nosso pai postiço, um apelido que Toby deu para ele. Nosso dedicado cuidador finalmente parou de chorar, abriu minha gaiola e me pegou no colo dizendo:

– Desculpe Bigode, mas hoje não é um bom dia. Infelizmente nossas ações para manter o abrigo não estão bastando. Tivemos que diminuir a ração. Sinto muito gatinho, mas sei que você entende.

“Tudo bem” penso, “vou tentar me controlar e comer menos. Eu só espero que o cachorrão do meu lado tenha a mesma sorte que eu.” Sabe, ficar em um abrigo como esse faz você pensar na sua vida de gato. Há mais de 100 animais aqui e as pessoas que cuidam de nós tem um coração do tamanho do mundo. Não que eu me importe com os humanos, minha personalidade felina não permite isso. Enquanto penso sobre minha história, observo o babão do Toby comer sua comida de cão nojenta. Eis a minha surpresa quando percebo que o alimento dado a ele não está reduzido como o meu! Vou ter uma conversinha com esse cara. Preparo minha voz máscula e grito a plenos pulmões:

– Ei, humano! Porque o Toby pode comer mais e eu não? Vocês compram só comida pra cachorros?

Ele me olha confuso e instantaneamente sei o porquê: ele só ouviu miados sem significado algum. Depois de um tempo sem falar, o meu ídolo humano limpa mais algumas lágrimas que surgiram de repente e volta a cuidar dos outros animais.

Algo em mim mudou desde aquele dia e no meu pai postiço também. Ele passou a me fazer mais visitas, e todas elas tinham um tom de despedida. Intrigado – como todo gato – resolvi fugir da gaiola por um momento e descobrir qual era o segredo que estava guardando de mim. Andei pelo abrigo e o avistei. Então, corri para o local que ele estava e levantei bem as orelhas. Ele conversava com uma mulher alta, de cabelos cacheados e pernas finas. Quase caí para trás quando me dei conta do estavam dizendo.

– Allan, não interessa se você quer adotar o Bigode e o Toby, regras são regras! Se não puder levar o gato até o final da semana, ele vai para a eutanásia!

– Por favor Clarice, espere mais um pouco. Eu vou conseguir mais dinheiro e vamos fazer a cirurgia que ele precisa.

– Cirurgias para retirar pedras no rim de gatos não são baratas, e ninguém vai querer gastar dinheiro com esse gato velho!

Allan engoliu em seco e eu corri. Corri até minhas patas pedirem socorro e então senti mãos grandes e ásperas em minha volta. Olhei para o rosto do homem e senti sua dor. Subitamente, aceitei meu destino e odiei o trabalho que ele fazia. Enquanto esperava pela injeção letal, minha mente passeava pelas conversas que tive com Toby e desejei – do fundo do meu coração – que ele fosse o cachorro mais feliz do mundo.

(…)

Os dias não eram mais os mesmos desde quando Bigode deu seu último miado. Eu sentia que logo eu daria meu último resmungo, não porque estivesse velho ou com doenças terminais, mas sofria de saudade crônica. Estava recebendo mais atenção do que o normal e gostava disso, mas não me animava. Minhas noites eram sempre solitárias, mesmo depois que o pano do bigode veio para minha jaulinha. Já havia outro animal ao meu lado, no lugar onde meu irmão postiço costumava viver, mas não era a mesma coisa.

O tempo passou. Eu não sei contar o tempo, mas sentia que havia passado muito. Allan chegou e o dia seguiu normalmente, mas quando chegou a hora de me dar tchau, ele abriu minha gaiola, enrolou-me na coberta, pegou o paninho esfarrapado do Bigode e disse:

– Hora de ir para sua nova casa.

Lembrava do último lugar em que estive que chamavam de “casa”. As pessoas que moravam comigo, foram as que me deixaram abandonado a própria sorte, em uma estrada qualquer. Mas agora era diferente, meu pai, não mais postiço, havia me adotado. Havia uma caminha afofada prontinha para me deitar, e assim, fechei meus olhos sabendo, pela primeira vez, que não acordaria sozinho na manhã seguinte.

“Provavelmente poucas pessoas têm a felicidade de encontrar no seu dia-a-dia a alegria que eu encontro. Ao mesmo tempo, é uma dura realidade que preciso encarar diariamente.” Pensava Alan. “Tenho consciência de que minhas tarefas exigem o máximo de mim, por isso, faço além do que posso, me doo além do que é permitido. Proporciono para aquelas frágeis vidas um último dia repleto de carinho ou um primeiro cheio de novidades. O trabalho mais incrível que existe é aquele onde vidas dependem de você e você dá o que há de mais importante para torná-las únicas”. Após esse último momento de reflexão, ele fechou os olhos e dormiu, enquanto afagava a cabeça de Toby, seu mais novo companheiro. O último desejo de Bigode tinha sido realizado.

Texto redigido para a aula de redação jornalística II, em parceria com minha colega de curso Aline Christina Brehmer do blog Asas de uma leitora e jornalista.

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