O poder e a loucura das palavras

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Foto: We Heart It

Mais uma noite com a minha amiga insônia. Em minha mente, restaram apenas memórias de uma vida que não parece minha. Levanto da cama com a cabeça girando e o coração a mil. De pés descalços, caminho até a cozinha desesperada por um copo de água e desejando que todos os meus problemas morram afogados nele.

Volto para o quarto e tento evitar o inevitável. Um pequeno raio de luz já penetra minha cortina. É isso, chegou a hora. Vou ao banheiro, tomo meu banho e escovo os dentes na esperança de permanecer normal. Ao colocar meu vestido preto que combina com o meu melhor sapato de salto, sinto que esse vai ser o pior dia da minha vida.

Não quero tomar café, mal posso pensar em comer. Pego a chave do meu carro e sigo rumo ao cemitério. Vejo rostos e escuto vozes que dizem a mesma coisa, não que eu esteja prestando atenção em alguém. Tudo o que eu posso pensar é na imagem do meu pai, debilitado pela doença. As vezes nem consigo lembrar dos tempos em que ele estava bem, parece ter acontecido há anos.

Quando chego perto do local do enterro, sei que não vou aguentar. Peço desculpas ao meu pai silenciosamente, limpo minhas lágrimas e saio correndo. Entro no carro a toda velocidade e simplesmente dirijo. Quando percebo que um dia terei que parar de correr, resolvo voltar para casa sabendo que não posso adiar minha mudança também.

Entro na casa silenciosa e me lembro do porquê não posso permanecer ali. Tudo lembra meu pai. O lugar está tomado pela sua personalidade forte e gosto excêntrico. Quadros, cores e livros que o representam estão por toda a parte. O local em que ele criava suas histórias incríveis está intacto. Lembro-me que ele não aderiu à tecnologia, pois não abria mão da sua máquina de escrever por nada nesse mundo. Seus papéis, lápis e canetas estão do jeitinho que ele deixou.

Sei que arrumar suas coisas vai ser extremamente doloroso, mas tem que ser feito. Começo a limpeza. Caixas, móveis, livros, lixos. São muitas as coisas que ele deixou. Cansada de carregar peso – afinal sou apenas uma mulher, resolvo parar para comer algo antes que eu caia dura. Vou para o meu quarto e ligo a televisão a fim de relaxar um pouco enquanto como. Quando começo a empacotar meus pertences, percebo um envelope que eu nunca havia notado. Ele tem um tom amarelado e está selado com um carimbo vermelho antigo. Abro cuidadosamente e seguro minhas lágrimas quando reconheço a letra do meu amado pai.

Querida Bianca, se você estiver lendo isso significa que eu parti dessa para uma melhor, caso contrário você me questionaria sobre isso enquanto eu ainda estava vivo. Desde que sua mãe se foi, eu sempre me senti responsável pelo rumo da sua vida. Entendo que você vive me dizendo que é feliz do jeito que está, mas eu sei que você pode fazer mais do imagina. Não quero que pense que você deve ser como eu, mas não desista dos seus sonhos. Não fomos ricos o suficiente para que eu lhe deixasse uma boa herança, mas deixo contigo o meu maior bem. Está embrulhado embaixo da sua cama, bagunceira. Com todo o meu amor, onde quer que eu esteja.

Uma carta, típico do meu pai. Com certeza ele não me deixaria um e-mail.  Corro para a cama e encontro o pacote a que ele se refere – eu realmente preciso limpar o meu quarto, penso. Abro cuidadosamente e encontro uma caneta. Eu reconheço esse objeto, é a caneta que conta histórias. Meu pai sempre dizia que enquanto escrevesse com ela, teria as melhores aventuras documentadas. Emocionada, guardo em minhas coisas e finalizo a bagunça da mudança.

Chego em minha nova cidade animada com a perspectiva de começar uma vida nova. Depois de levar horas para arrumar tudo, saio a procura de um trabalho – vida nova, emprego novo, casa nova! A realidade massacrou meu pensamento otimista. O mercado de trabalho está meio difícil por aqui, então peguei minhas coisas e decidi procurar em outro dia. Uma, duas, três semanas se passaram e eu não consegui nada. Desesperada com a ideia de ter que pagar o aluguel na semana seguinte, resolvi aceitar a única oferta que tive: trabalhar na lanchonete local.

O meu primeiro dia foi mais tranquilo do que imaginei. Enquanto eu fazia o café, meu gerente tagarelava sobre as regras. Você tem uma caneta?, ele perguntou. Ela é o principal instrumento de uma garçonete, querida.No decorrer do dia, alguns clientes chatos e algumas cantadas surgiram – nada fora do normal. Ao anotar os pedidos, tirei a grande caneta do meu pai da bolsa e dei uma nova serventia a ela.

Eu sei que deveria estar seguindo seus conselhos, mas também preciso pagar o aluguel. A pequena caneta era realmente especial. Pequena e pesada, bonita e de ponta fina. Perfeita para qualquer papel. Também possuía uma tinta que parecia não acabar nunca, o que era muito útil no meu trabalho.

Construí uma nova vida e uma identidade no meu trabalho. O objeto tornou-se meu único amigo, pois passava mais tempo com ele do que com qualquer outra coisa. Ao chegar em casa, escrevia o máximo que podia com a minha caneta mágica. Algumas garotas cantam, outras dançam. Eu? Eu passo meus dias conversando com canetas. Apesar da minha vontade de escrever, o trabalho ficou mais pesado e eu perdi o interesse de criar histórias. Estava sempre cansada e não tinha mais tempo para isso. Não sou o meu pai, nunca serei como ele.

Com o passar do tempo, percebi que a caneta começou a falhar. No início, achei isso meio estranho – era como ela estivesse brava comigo. Percebendo a loucura em que estava pensando, terminei de limpar as mesas e segui para casa. Deixei minha bolsa sob a mesa e fui tomar banho. Quando voltei, minha bolsa não estava mais lá. Só o que me faltava, pensei. Procurei por toda a parte e parei quando vi a cena mais estranha da minha vida: a maldita caneta perto de um papel na minha escrivaninha.

Gritei. E bem alto. Não sei porque estava com medo de um objeto tão pequeno, mas fiquei apavorada.  Depois de correr pela casa inteira, uma ideia estranha me ocorreu: será que ela quer que eu escreva alguma coisa? Ou será que eu estou sonhando? Certo, me acalmei e bati com força na minha cara: Ai! Tudo bem, estou acordada.

Depois de pensar por alguns segundos, resolvi enfrentar a caneta. Andei até a escrivaninha bravamente e a tomei nas mãos. Sentei e comecei a escrever. Não tinha nenhuma história em mente, mas ela parecia possuir vida própria. Era como se minhas mãos se movessem sozinhas. Enquanto eu escrevia, ria histericamente e só parei porque decidi que isso era perturbador. Passei a noite escrevendo, criei personagens e mundos únicos que nem eu sabia podia fazer. Após tudo isso, por fim adormeci.

Quando acordei, arrumei minhas coisas e segui rumo a mais um dia de trabalho. Ao anotar o pedido do primeiro cliente, percebi uma certa resistência da caneta. Eu juro que não estava louca, ela não queria anotar nada! Envergonhada com a cena, corri para a cozinha e tentei me esconder do gerente. Quando vi que a área estava limpa, peguei minha chave e corri pra casa. Intrigada com o acontecimento, tentei escrever uma história e o objeto milagrosamente funcionou. Com dores de cabeça e ainda meio zonza, fui dormir pensando que amanhã ligaria para um psiquiatra.

Os dias seguintes foram normais. Comprei uma caneta nova para o trabalho e utilizei aquela apenas para histórias. Ainda estou convencida que meu pai encarnou nela e deve estar rindo da minha cara até agora. Segui com meu emprego estável na lanchonete, mas não desisti de escrever. Realmente, meu pai me deixou seu maior bem: o poder das palavras. Essa era sua marca registrada e ajuda a mantê-lo pertinho de mim. Não há dinheiro que compre isso. Entre letras e mágica, posso dizer – ou melhor, escrever, que sou extremamente feliz.

*Texto redigido para a aula de Redação Jornalística com o tema caneta.

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