Um eu do futuro

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Foto: We Heart It

Acordo. Imediatamente sou tomado por uma raiva instantânea. O barulho do meu despertador anuncia o início de mais um dia. Com os olhos semiabertos, tento achá-lo em meio à bagunça de minha mesa de cabeceira. Quando finalmente o encontro, aperto o botão com toda a minha força – como se isso fosse diminuir a raiva de ter que acordar tão cedo. Olho no relógio, que aponta seis horas exatas.

Coloco-me de pé, visto meus chinelos azuis e caminho em direção ao banheiro. Escovo os dentes enquanto me olho no espelho e não reconheço a imagem ali refletida. Olheiras e pequenas rugas agora são minhas marcas registradas. Esse trabalho está acabando comigo. Visto meu uniforme, que há tempos detesto, arrumo meu cabelo e coloco um sorriso falso no rosto.

Desço as escadas e minha mãe já está me esperando com um caloroso bom dia. Sinto o cheiro de café fresco no ar e isso me deixa animado. Tomo café correndo e levo um sanduíche para viagem. Pego a chave do carro que está na mesa e sigo meu rumo. Rumo ao trânsito, obviamente.

Não tenho mais paciência pra isso. Não sei se estou ficando velho ou simplesmente sou ranzinza. Todos os dias, buzinadas e filas acabam com o humor que já não tenho. Os apressadinhos e irritados, os folgados e os lentos. O trânsito é lugar para loucos, essa é minha única explicação. Como se isso não bastasse, estou atrasado. Não porque saí tarde, mas porque fiquei preso no trânsito.

Chegando ao trabalho, me deparo com a cara nada amigável do meu chefe.  Isso não é mais novidade pra mim. Em plena segunda feira, ele está pronto para mais uma reunião. Entramos em sua sala e me sento diante dele. Como sempre, ele discursa sobre coisas que não fiz, coisas que deveria ter feito e metas da empresa que não atingi. Houve um tempo em que isso me incomodava, hoje em dia, não ligo mais. Só quero acabar logo com isso.

Vou para minha sala bagunçada. Pilhas de papéis e assuntos a serem resolvidos estão empilhadas em minha mesa. Mas não me importo, não mais. Quando ouço o telefone tocar, sinto uma pontada de raiva. Atendo o telefone com o script que toda empresa de respeito tem.  Falo as mesmas frases, farto disso tudo. Tento levar a manhã da melhor forma possível, mas pulo de felicidade quando percebo que já é meio dia. Está na hora de almoçar.

Quando coloco o pé na porta, rumo ao restaurante, um cliente aparece para eu atender. Reclamo baixinho, amaldiçoando minha existência e a maldita hora em que nasci pobre. Tento parecer simpático e atendo com um caloroso olá. Um homem mais velho, cabelos grisalhos e rosto enrugado me lança um belo bom dia, senhor Daniel. Tudo bem com o senhor? Paro. Fico intrigado. Como ele sabe meu nome? Prefiro nem perguntar, todo mundo nessa cidade é louco mesmo. Enquanto viajo em meus pensamentos, sou surpreendido por outra pergunta: podemos conversar? O senhor tem algum tempo? Eu poderia dizer que não, mas algo naquele senhor me dizia que eu tinha que conversar com ele. De certa forma, ele era muito parecido comigo.

Levei o senhor esquisito para minha sala, assim teríamos mais privacidade. Ele me lançou um olhar de curiosidade e perguntou: diga-me Daniel, você é feliz nesse exato momento? Você faz o que ama? Oh, droga – penso. É mais um vendedor ambulante ou alguém tentando me vender uma bíblia. Sem saber o que responder digo: olhe para mim senhor, pareço alguém que faz o que ama?

Deixe-me ver… Se não é feliz, porque exatamente faz isso? Disse o senhor. Olha, – respondi, esse é o mal da minha geração. Existem aqueles que fazem o que amam e estão prontos para mudar o mundo. Eu? Eu só existo. Não tenho a pretensão de ganhar o mundo. Só preciso do dinheiro. Sinto que o senhor me analisa e então diz: olhe Daniel, tenho uma proposta irrecusável para você. Nessa caixa que tenho em mãos, existem três botões. Cada um deles tem a capacidade de te levar para dois momentos da sua vida. Seu passado e seu futuro. Em seu passado, você irá passear por algum momento que te trouxe até essa vida cheia de infelicidades e no seu futuro, você poderá assistir o que o dia de hoje diz sobre a sua vida daqui a 10 anos.

Ok, será que eu posso rir agora? Quando me levanto para expulsar o picareta da minha sala, ele não está mais lá. Será que dormi no trabalho novamente? Essa seria uma teoria totalmente aceitável se uma caixa com dois botões não estivesse bem na minha mesa. Que ótimo. Peguei a caixa cuidadosamente e apertei o botão passado. Nada mudou, caí na gargalhada. Então tudo ficou escuro.

Acordo com minha mãe me chamando. Estranho. Não lembro a última vez em que ela fez isso. Danieeeeeeeeeeeeel, hora de levantar! Vista-se já senão vai se atrasar. Seu pai precisa trabalhar! Ok. Duas coisas erradas nessa frase. Primeiro, tudo rimou estranhamente. Segundo: meu pai morreu há 10 anos. Isso quer dizer que a) estou louco ou b) a caixa funciona e eu sou um idiota por apertar o botão.

Coloco minha pantufa de bichinhos e o uniforme da escola. Então, caminho até o café da manhã. Meu pai já está impaciente. De acordo com a mamãe, hoje será o dia que o seu chefe finalmente anunciará quem ficou com a vaga de vice-presidente. Papai acha que vai ser ele, pois trabalhou duro passando a perna nos outros para que isso aconteça. Minha mãe sempre me disse que eu tinha que estudar para trabalhar e ganhar dinheiro, assim como o meu pai. Ganhar tanto dinheiro não o ajudou em nada. Ele morreu e não levou nada disso com ele.

Vou pelo caminho pensando que não quero trabalhar no que não gosto. Quero ser um grande escritor, escrever meu livro e viajar pelo mundo. Deus me livre de ser como meu pai. Chego à escola e ando até minha sala. Hoje é dia de prova de matemática. Como todo escritor, não me dou bem com números. Preciso achar um jeito de fugir dali. Penso. Remexo meus bolsos e não sei como, encontro a caixa dentro de um deles. Aperto o botão rapidinho. Futuro, lá vou eu! E então, escuridão.

Acordo com o telefone tocando. Atendo com a voz sonolenta e ouço uma mulher gritando comigo, mas ela não tem a voz da minha mãe: Danieeeeeeeeeeeeeel, você não assinou os papéis de divórcio ainda porque hein? Só porque você é um infeliz, não torne a minha vida miserável também! Quero esses papéis amanhã na minha casa, ouviu? Ouço-a desligar o telefone na minha cara e sem entender direito, calço meus sapatos ortopédicos e vou para o trabalho. Espera aí, trabalho? O mesmo trabalho? Na mesma função. Quase caio para trás.

Enfrento o mesmo trânsito, olho para a mesma cara do meu chefe e não fico surpreso ao saber que nesse tempo todo só ganhei 100 reais de aumento.  Encaro a mesma reunião, com os mesmos xingamentos e me dou conta de como sou infeliz. Minha ex-mulher, seja ela quem for, está certa. Nessa hora, tenho uma epifania – como em um filme, sim. Se minha vida fosse um filme, nesse momento estaria tocando uma música motivacional. Então, em um surto de felicidade, grito: eu me demito! E saio correndo em busca de algo. Mas espera aí. Em busca do que? Como faço pra voltar pra minha vida ‘’normal’’. Não quero ser alguém que usa sapatos ortopédicos, divorciado e careca. Agora, pra onde eu vou? Amaldiçoo o velho da caixa. Desejo que ele esteja morto nesse momento. Bom, morto não, senão seria ainda mais difícil voltar.

Pego meu carro caindo aos pedaços e vou para o único lugar onde me sinto feliz. Na praia. Olho as ondas quebrando, ainda não acreditando no tempo que desperdicei com um trabalho que nunca gostei. Luto contra a vontade de chorar. Então, tiro da bolsa um velho caderninho que carregava sempre que tinha uma ideia boa. Começo a escrever. Escrevo sobre um homem que viaja no tempo só para descobrir que deve arriscar mais. Descrevo todos os passos dele. Passo horas escrevendo e nem me dou conta que o tempo passou. Adormeço lá mesmo, não quero voltar pra casa. Quero ficar ali para sempre. Enquanto caio no sono, novamente a escuridão.

Acordo na minha casa. Minha cama, meus chinelos azuis e meu despertador irritante estão intocáveis. Olho no espelho e percebo que tenho a aparência mais jovem. Desço e vou tomar café. Minha mãe eufórica já vai me perguntando: está animado? Sem saber o que dizer, respondo: Animado com o quê? Ela da um sorrisinho e diz: com a estreia do seu livro, bobão. Esqueceu?

Será que estou sonhando? A confirmação da realidade do meu sonho só veio quando minha mãe disse: aaah, antes que eu me esqueça. Um senhor muito simpático veio até aqui e deixou essas flores pra você. Curioso, olho no cartão e vejo em letras pequenas, você está fazendo o que ama agora, senhor Daniel? Dou um sorriso, agradeço minha mãe e digo, vai ver era eu mesmo, mamãe. Um eu do futuro.

*Texto produzido para a aula de redação jornalística e baseado no vídeo All work and all play.

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